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Ariano Suassuna: O Mestre Armorial.
Imagem de Raimundo Didi - Ariano Suassuna em Exu.

Ariano Suassuna: O Mestre Armorial.

Nesta data em que se completam quatro anos da morte do mestre Ariano Suassuna, desejamos lançar vistas sobre o movimento por ele idealizado e denominado de Armorial. É importante discorrer sobre este tema para entender a concepção que Ariano tinha de arte e qual a sua proposta ao fazer arte. Para melhor exemplificar, faremos ainda uma breve análise de um de seus romances: A História do Amor de Fernando e Isaura (Uma versão Armorial de Tristão e Isolda).

Diferente do que geralmente acontece, o Movimento Armorial não surge ditando as regras de uma nova orientação artística. A arte que ele conceitua é mesmo anterior ao seu surgimento. O que se fez então foi criar um “selo” sob o qual se agrupou uma gama de produção artística que já existia e tinha algo em comum, “a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do romanceiro popular do Nordeste…” (SUASSUNA, 1974, P. 07). Não foi, pois, um movimento de revolução, mas de valorização de uma cultura popular marginalizada que, sendo elevada, formaria a base de uma arte erudita brasileira. O folheto de cordel é para a arte Armorial um ponto de partida e de convergência por reunir em si três caminhos possíveis: Literatura, inspirada na poesia narrativa; Artes plásticas, inspirada nas xilogravuras; E Música, inspirada no “cantar” dos versos.

A produção artística já existia. Os artistas populares produziam suas obras nos mais diversos seguimentos. Coube a Ariano Suassuna reunir e dar nome a esse conjunto de obras. O nome escolhido foi “Armorial”, substantivo que ele transformou em adjetivo. O próprio Suassuna explica os motivos que o levaram a escolher tal termo:

“Primeiro, porque é um belo nome. Depois, porque é ligado aos esmaltes da Heráldica, limpos, nítidos, […] Foi aí que, meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de cavalhada era ‘Armorial’, isto é, brilhava em esmaltes puros…” (SUASSUNA, 1974, P. 10).

Logo o termo Armorial passou a qualificar toda a arte que permaneceu pura, preservada no interior do Nordeste, isenta de estrangeirismos modernos. Arte esta que tem origens na era medieval europeia.

A partir de então o Movimento Armorial começou a tomar forma e definir seu objetivo: “… realizar uma arte brasileira erudita a partir das raízes populares da nossa cultura” (SUASSUNA, 1974, P. 10). Buscando uma identidade própria o movimento adotou alguns símbolos nacionais para estampar suas obras, dentre eles o Caju e a Onça, espécies de cores marcantes e tipicamente brasileiras. Tais insígnias estão presentes principalmente na pintura, mas povoam também a literatura. Deteremos-nos um pouco mais em suas características. O texto Armorial, em seus diversos campos, tem como tema as histórias do interior nordestino repletas de elementos fantásticos: assombrações, animais emblemáticos, heróis, princesas, reinos, diabos e etc.. Tudo isto envolvido por uma atmosfera trágica e contado em tom áspero. Vale lembrar que esses temas remetem aos mitos e lendas medievais europeus que cruzaram o Atlântico e fincaram raízes no Nordeste brasileiro dando origem a inúmeras histórias contadas pelos cantadores de viola.

Ao escrever A História do Amor de Fernando e Isaura, Ariano Suassuna segue essa mesma linha e se apropria de um modelo antigo para escrever algo novo, o revestindo de elementos contemporâneos ao seu tempo e o adequando a um novo cenário, mas mantendo a essência do texto. Por este motivo o livro apresenta uma curiosa advertência para que o leitor tome ciência de que os valores que regem a conduta das personagens pertencem a um tempo anterior ao tempo em que decorre a ação. Tal advertência é válida visto que o enunciatário, na perspectiva dialógica, assume um papel fundamental na construção do sentido, pois recebe e interpreta a mensagem de acordo com suas ideologias e o contexto em que se encontra. Fica assim avisado que a história de Fernando e Isaura não deve ser lida dentro dos moldes dos amores modernos, pois, a narrativa, sendo uma reescrita do livro Tristão e Isolda, insere as personagens no contexto das autênticas histórias de amor. Fernando e Isaura agem movidos não pelos valores morais e sociais da época, mas, por um amor tão intenso e avassalador que suas atitudes podem nos parecer incompreensíveis.

Suassuna costuma ambientar suas obras no interior da Paraíba, mas o cenário que reveste “Fernando e Isaura” é o litoral alagoano, nas proximidades da foz do rio São Francisco. Tal deslocamento se dá pela necessidade de proximidade com o mar, visto que em “Tristão e Isolda” ele tem papel fundamental no desenrolar dos fatos. É o mar que aproxima os amantes e que depois os impede de se reencontrarem. A ambientação da obra é já um ponto de convergência entre os textos no que diz respeito a este elemento. O amor e a traição como temas centrais, o fim trágico dos amantes, também.

O principal ponto de afastamento entre os textos está no elemento fantástico deixado de fora por Suassuna, resultando em uma história mais “real”. Não encontramos gigantes, anões feiticeiros, dragões, fadas, e principalmente o vinho do amor que embriaga Tristão e Isolda. O que destoa da realidade é apenas o amor vivido por Fernando e Isaura, o mais poderia perfeitamente acontecer. O vinho não está presente, mas o seu efeito sim. A paixão avassaladora que os embriaga é a mesma.  Isaura chega a afirmar a Fernando que “Desde que, na festa, você me apertou em seus braços, fiquei tonta, como se tivesse tomado vinho!”. (SUASSUNA, 1994, P. 48). Lembremos a advertência feita pelo autor para compreendermos que Fernando e Isaura herdam o efeito do vinho. Deste modo, ligados “por uma paixão irreparável, por um amor terrível e eterno…” (SUASSUNA, 1994, P. 50) os amantes são capazes de atitudes incompreensíveis ao nosso tempo, como abrir mão um do outro para preservar o amor. “Se nos separarmos agora, nosso amor se manterá puro e vivo para sempre…” (SUASSUNA, 1994, P. 113). Tristão e Isolda são vítimas do filtro mágico, Fernando e Isaura são vítimas do destino, numa sucessão de fatalidades que os conduzem ao infortúnio, o que, para um público contemporâneo, é mais aceitável e compreensível. Por fim, Suassuna alcança o mesmo objetivo que é dar aos amantes um motivo para serem eximidos de culpa.

O que distancia ainda o texto de Suassuna do texto base e lhe confere originalidade (sendo esta relativa) são os elementos contemporâneos, a sua marca própria, aqui representada pelo Armorial. O reino medieval de Marc é transformado em uma rica fazenda no litoral; Os navios são barcaças de cabotagem; Os encontros furtivos dos amantes acontecem sob um cajueiro, ora, o caju é uma das insígnias Armoriais; Preceitos cristão-católicos são inseridos na história, como a promessa feita por Marcos a Nossa Senhora de casar no primeiro dia da páscoa, a traição que ocorre no sábado de aleluia; O rei Marc representado por um fazendeiro; O cavaleiro e semideus Tristão covertido em Fernando, um vaqueiro sem qualidades sobre-humanas; Isolda dá lugar a Isaura que já não apresenta as qualidades de fada, mas continua bastante astuciosa; E o Ermitão Ogrin representado por um padre que assume a mesma função de intermediador; Os barões que descobrem a traição são representados por uma mulher que desejava o matrimônio com Marcos; Há ainda Isolda das brancas mãos. A narrativa se desenvolve basicamente entorno destas personagens e o narrador conta a história em um estilo próximo da narrativa oral e popular. Ariano Suassuna consegue assim da sua “cara” ao texto e o faz reviver em uma versão mais simples, sem perder, contudo, a sua essência e beleza que encantou leitores de todo o mundo por séculos.

Sobre Jadson Alencar

Jadson Alencar é graduando em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri - UFCA.

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